Como sempre, lembro o poder da arquitetura e das emoções que ela pode transmitir; Uma das obras que me faz ter certeza disso é o Museu Judaico de Berlim do arquiteto Daniel Libeskind.
Uma obra simbólica e significativa que provoca diferentes sensações nos visitantes. O conceito do Museu é relembrar o holocausto; Passado sofrido pelos judeus diante a Alemanha nazista, na segunda guerra mundial. A partir do fato histórico, o arquiteto tira partido do símbolo dos judeus, desconstruindo a estrela de Davi.
O Arquiteto tira partido do símbolo Judaico para dar forma ao museu
Na minha opinião, à um conjunto de fatores que tornam essa obra genial, pois a arquitetura desconstrutivista de Daniel Libeskind consegue perfeitamente traduzir o conceito de forma surpreendente, de tal maneira que desperta diretamente no usuário "calafrios". A proposta do museu é justamente, fazer com que as pessoas sintam sensações diferentes como: Solidão, silêncio, medo, esperança, através do clima que cada espaço do museu proporciona. Faz com que entrem na história e sintam, mesmo que em uma minima proporção, o sentimento que os judeus da época da guerra sentiram.
A fachada exibe aberturas por linhas que recortam a edificação
O piso e o tento se desalinham, criando certo desequilíbrio.
Em corredores abertos: moedas de ferro com desenho de rostos.
Como dizia o mestre João Filgueiras Lima, o Lelé: “O
arquiteto deve ser um profissional generalista.” Na obra precisa entender um
pouco de tudo e pensar em todos, desde aquele que irá frequentar a edificação até
aquele que apenas olhará da rua.
É fundamental um conhecimento um tanto filosófico por parte
do arquiteto, envolvendo o usuário e o porquê da arquitetura. Afinal, o projeto arquitetônico tem
a sua razão baseada na relação da vida cotidiana do homem e da sociedade. Para um bom
projeto ser criado, deve inicialmente, ter uma boa interpretação; não apenas do local onde será implantado, mas da atividade
que será exercida nesse determinado espaço.
Fazer arquitetura é construir a cidade; um projeto só faz
sentido quando ele funciona no ponto de vista de todos. O arquiteto urbanista precisa ser um profissional de criatividade conceituada, mesmo que muitas vezes seja pouco compreendido;
mas que pode muito além de simplesmente fazer um projeto, ver possibilidades e
soluções relevantes.
Pensar: Onde entra a luz, por onde passa o vento, até onde chega a sombra, o olhar de quem passa e o caminhar do usuário, parece para muitos
insignificante; para o arquiteto que pensa assim é o início de um ótimo
trabalho.
Em um vídeo produzido pelo CAU (Conselho de Arquitetos e Urbanistas) fiz uma edição de alguns comentários de profissionais exemplares, explicando como definir um bom projeto de arquitetura.
Quando o objetivo é pensar arquitetura, uma das melhores referências é a arquiteta Lina Bo Bardi, que sabia traduzir o seu pensamento de maneira genial e clara em suas obras. Talvez o público que visita o SESC Pompeia sem o mínimo de informação não compreenda a intenção arquitetônica, mas certamente podem sentir da própria edificação.
Antes um problema urbano, uma fábrica desativada prestes a ser demolida. Porém Lina Bo Bardi propôs reaproveitar a edificação como um local de lazer e cultura, na época foi uma proposta bastante impactante, como por exemplo, nas torres ao invés de janelas, abrir buracos deformados.
A ideia é uma arquitetura profundamente humanista, desprovida de luxo e acabamentos formais, para que em momentos de lazer as pessoas se sintam livres, sem um rigor por organização, sem barreiras, com interação entre espaços de convívio de cada um, nenhuma atividade é fechada a nada, compartilhada a alegria de cada pessoa. Tudo pensado para uso de todos sem exclusão.
Em razão disso a arquitetura deve ser honesta, mostrando materiais e estruturas aparentes, a ausência de paredes divisórias que orientam as pessoas e organizam as atividades, mas grandes áreas abertas para integrar os espaços e prolongar a visão do público dentro da edificação.
Na boa arquitetura tudo tem uma razão de ser, uma forma mais romântica de pensar o espaço é quando o arquiteto vira artista e a arquitetura vira poesia. O cuidado da forma estética seguindo uma função de uso específico ao usuário é sempre fundamental, o diferencial é poder interpretar com sensibilidade a ideia conceitual da edificação em cada forma e elemento construído.
Gustavo Penna um dos grandes arquitetos brasileiros é um belo exemplo de como se deve pensar um arquiteto, tamanha sensibilidade no seu trabalho que faz parecer uma obra de arte funcional.
Todo o arquiteto que conceitua suas obras tem o desejo em algum período da vida projetar uma grande obra religiosa, nem todos tem esse privilégio. Isso porque não existe maior inspiração do que pensar e criar algo que tem princípios sagrados, tratando-se do espaço diretamente ligado à fé do homem com o ser divino.
Em um congresso ainda na faculdade sobre arquitetura sagrada, pude compreender com maior clareza a sensibilidade que se deve ter com esse tema na arquitetura.
Acredito que o aperfeiçoamento de criar conceito intencional na arquitetura historicamente tenha origem pela religiosidade humana, como uma forma e necessidade de poder sentir a presença de Deus no local. Olhando para o passado, os arquitetos dos primeiros templos religiosos já tinha essa preocupação em planejar.
Essa imagem é um templo religioso na Ucrânia, percebe-se a projeção de luz diagonal.
Na idade média os templos eram conceituados através do contraste de luz e sombra, era estrategicamente planejada a entrada de luz natural na edificação, simbolizando a presença de Deus como luz, dominando e interagindo no espaço com os fieis.
A catedral de Brasília
A catedral de Brasília projetada por Oscar Niemeyer é um ótimo exemplo de arquitetura religiosa, inserida dentro de um pensamento inovador, sem perder o conceito histórico, que faz dessa edificação um obra de arte!
Já reparou que enfrente de toda igreja, principalmente igrejas católicas, sempre há uma escadaria? Ela faz parte de principio religioso, de elevar a importância da igreja, para que a pessoa antes mesmo de entrar, reverencie o local, mesmo que sem perceber olha para o chão enquanto sobe a escada.
Niemeyer criou na Catedral de Brasília uma rampa com o mesmo pretexto, antes de entra o público passa por uma longa rampa, enquanto avança se torna cada vez mais escura, como uma passagem do pecador até encontrar a luz divina. Quando finalmente entra na catedral, é contemplado com a iluminação natural impressionante proporcionado pelos grandes vitrais ao redor da edificação.
Quando se insere conceito no projeto arquitetônico é justamente o que torna a obra, única, especial e encantadora. Antes mesmo de começar a riscar qualquer traço é preciso o arquiteto saber aonde quer chegar e qual o sentido que busca cumprir seu trabalho. O conceito é a ideia essencial caracterizada na edificação que faz da obra a razão de existir.
O mestre Niemeyer, por exemplo, não fazia croquis até sair o projeto pelo acaso, suas obras já eram pensadas com uma intenção final antes de chegarem ao papel.
Estética é muito importante, funcionalidade é indispensável, mas para ser um projeto de excelência é fundamental um conceito por trás de tudo isso.
Está direcionada inteiramente a afetar a percepção visual e espacial do usuário, mesmo que a pessoa não perceba diretamente a razão arquitetônica, ela sempre recebe a informação no seu subconsciente. Em uma boa arquitetura nada é feito por acaso.